expo sara antunes 038
"Casa Interior"
exposição presente 05 April a 30 April


No princípio criou Deus o céu e a terra.
E a terra era sem forma e vazia; e havia trevas sobre a face do abismo; e o Espírito de Deus se movia sobre a face das águas.
E disse Deus: Haja luz; e houve luz.
E viu Deus que era boa a luz; e fez Deus separação entre a luz e as trevas.
E Deus chamou à luz Dia; e às trevas chamou Noite. E foi a tarde e a manhã, o dia primeiro.”
Gênesis 1:1-5

 

A prática de representação do ambiente construído através da dicotomia claro/ escuro e a sua relação com a matéria, continua sendo tema de grande fascínio e interesse. É esta riqueza do contraste da luz com a penumbra que nos dá a percepção do espaço, que através do traço se define e ganha presença. São as intensidades do momento que definem as gradações, os fulgores da luz e a relação do espaço com a sombra, convertendo-se numa ferramenta de decifração do entorno. As sombras dos objectos e as suas combinações com as superfícies mostram uma afinidade entre si, que apesar de serem diferentes, complementam-se e permitem identificar a unidade do desenho.

A representação desses espaços revela-se como um todo, e resulta numa instigante combinação que é fruto de um composto de gradações monocromáticas em diálogo entre si. São aparências de objetos incertos dispostos numa ambiência espacial que é íntima e irregular, porém bem definida. As formas separam-se, dividem-se e unificam-se num registro único de um habitat singular. As composições encerram em si uma avaliação gradativa, representando os contrastes da luz de uma forma rica e esclarecedora. Os seus contornos revelam as formas pelas quais o espaço representado se assume: variado na sua definição geométrica e rico em apontamentos particulares.

Os desenhos ganham um sentido próprio e uma autonomia que vai para além da mera identificação dos objectos e dos espaços. Eles tomam por base elementos de uma natureza específica, que no desenrolar do processo de captação, ganham independência e se assumem como objectos soltos, meticulosamente observados e combinados num evidente acerto cromático que ultrapassa a mera representatividade do real.

Estes exercícios de captação de luz e de sombra revelam ambientes de diferentes intensidades que se aglutinam e se organizam num jogo de contrastes intrigantes. As geometrias organizadas do espaço adornam-se através de linhas e manchas assimétricas que delimitam territórios de escala familiar. São captações de um momento único do dia, convertidas em fórmulas e registros numéricos de intensidades no qual as sombras se manifestam em formas dialogantes. O resultado é uma fragmentação do tempo convertida em frame, através de uma técnica manual que sintetiza uma visão particular e única. É um exercício de captação de intensidades, no qual este elemento de charneira entre a matemática da luz e os objetos, conduz a um novo significado. A captação e o registo ocasional patente nos desenhos de Sara Antunes revelam-se de forma precisa e abrangente. A sua capacidade de síntese é perspicaz, revelando uma visão e um entendimento do ambiente registrado, de forma fulgurosa e coerente.

 

Nuno de Almeida

São Paulo, Março 2014