cerimonia
"Arquivo"
exposição presente 27 October a 24 November


De que se faz a pintura? Daquilo que vive o seu autor, o pintor? Pode a pintura ser uma afirmação política? Pode o motivo da pintura extravasar os seus limites, referir-se ao ruído de fundo audível e sentido pelo pintor e manifestar-se enquanto ato político? E quando é que uma pintura começa? Estas são algumas questões que podem ser colocadas, querendo compreender os mecanismos que levam ao início de uma ou um conjunto de pinturas. A pintura antes de se mostrar no suporte já existe, porque é criada pelo que vive o seu autor, é aqui que começa o dispositivo pictórico, pelo que é experienciado pelo pintor e pelo ruído de fundo que nele provoca.

Na última década, vivemos tempos estranhos, fomos sendo atordoados por um sem número de factos (que não interessa se verdadeiros ou manipulados, criados para um objetivo difuso) e notícias preparatórias para grandes operações políticas que uma grande maioria afetou. Do ruído subjacente e arquivado em forma de memória, mais ou menos nítida, surgem os leitmotiv da pintura: o castigo, pelo mau comportamento; o içar da bandeira nacional em forma invertida, talvez sinónimo do estado da nação; momentos de subjugação da política nacional face a interesses terceiros; da pompa com que uns, vaidosamente, se davam a tomadas de posse e à pose com que o faziam; ao cansaço de todos aqueles obrigados a provar a receita para debelar a crise; até à exibição de despojos de guerras absurdas. Houve até quem separasse o país dos seus habitantes, reduzindo-o a um pedaço de terreno, afirmando que: “a vida das pessoas não está melhor, mas o país está muito melhor. “

Mas a pintura é isto, a ilustração de uma resposta política mais ou menos óbvia? Não! Pode este ruído de fundo motivar a pintura, mas a pintura é bastante mais. Como se disse atrás o dispositivo pictórico pode ser embraiado desta forma, mas é da extensão do corpo do pintor no lugar háptico que é a superfície pictórica, que se faz a pintura. A pintura existe no plano imanente. É este plano que deve ser assumido na camada pictórica do dispositivo. É aqui que se vê a pintura, é através do plano háptico, criado pelos registos do pintor, pela extensão do seu corpo na superfície pictórica, que a pintura se materializa. E é através deste plano imanente que a transcendência pode descolar e, deste modo, ver para lá da pintura ou ver por entre a pintura assumindo-se, esta, como interface entre pintor e observador, entre a vontade de realização pictórica e a observação, apreensão da camada pictórica.

Esta pintura é figurativa e com ela constrói-se uma narrativa. Sobre o leitmotiv desta já atrás se falou. Na superfície está representada, uma e outra vez, todas as vezes, o pintor em forma de outro, uma espécie de fantasma tornado visível, alimentado pelo ruído de fundo. Um doppelganger, figura central nas composições. Se a pintura é a extensão do corpo do pintor, neste caso é-o duplamente, pelo registo pictórico e pela representação em forma de outro. Não são autorretratos, nunca tiveram esse intuito.

Nestas pinturas convoca-se a presença do observador, a consciencialização da sua presença, observando o momento performativo das personagens no espaço pictórico. Aqui, observamos o momento performativo registado na superfície, mas também se dá a ver o reverso da pintura, onde se enuncia o titulo da mesma. Promove-se uma ação dinâmica do observador, porque vê a pintura e vê o objeto pictórico, deslocando-se para trás deste. Como se corpo se deslocasse 360º em volta do objeto pictórico. Implicitamente promove-se o movimento do corpo do observador.

Das várias camadas do dispositivo pictórico é, neste caso, importante relevar uma, porque é um momento nuclear na realização das composições. É o momento em que o outro do pintor entra em ação para ser figura presente nas composições pictóricas. No espaço do atelier registam-se os movimentos operativos realizados pelo pintor, num setup ou cenário, onde o pintor se movimenta e posa para a máquina. É este outro, do momento performativo que é, na camada pictórica, figura principal na composição. É através dele que se promove a narrativa. Num momento ulterior o registo fotográfico ou de

vídeo será trabalhado com ferramentas digitais, que permitem ter a pintura diante dos olhos do pintor. Neste nível a pintura encontra-se em forma de artefato digital, que sem ser superfície pictórica, já se mostra presente enquanto pintura. E é este artefato digital que será transformado em superfície pictórica, não no sentido da cópia, porque é uma camada do dispositivo pictórico, é a pintura (que já vem de trás, da vontade da construção pictórica) transformada em coisa visível, elemento fundamental para realização da pintura.

Nesta exposição intitulada “Arquivo” a pintura assume-se numa perspectiva alargada. Não se promove uma leitura tradicional (porque comum) da superfície pictórica colocada na vertical, numa parede branca, como centro óptico ao nível dos olhos; estabelecendo movimentos e posturas do observador face à pintura, observada perpendicularmente. Aqui, as pinturas estão integradas no espaço com outros objetos, alguns dos quais fizeram parte dos adereços usados no setup dos momentos performativos que deram origem às composições. Pretende-se não só a composição dos objetos e elementos pictóricos no espaço, criando relações entre pinturas e o espaço onde se inserem, mas também, o movimento do observador no espaço, numa postura mais dinâmica. Este precisa de se baixar ou elevar o olhar, mover-se no espaço para observar as pinturas, interagindo com estas e os objetos no espaço da exposição.

Note-se, as pinturas continuam a ser pinturas, continua a ser valorizado o plano pictórico, mas têm um modo de instalação específica. Com isto têm uma presença dual, são superfícies pictóricas e ao mesmo tempo objetos instalados no espaço, que promovem o movimento performativo do observador. São um hibrido. Já foram outra coisa, porque expostas de forma diferente, em espaços diferentes. Poderão assumir um caráter diferente, num outro espaço, instaladas de uma outra forma, mantendo a superfície pictórica.

Voltando ao início, pode a pintura ser um comentário politico? Pode. Mas este é um momento anterior do dispositivo pictórico, antes do aparecimento da imagem em forma de objeto visível. Este arquivo foi alimentado por isso, pelo ruído de fundo que guiou a sensibilidade pictórica ao longo das várias camadas do dispositivo. A leitura que cada um faz das pinturas será independente do leitmotiv originário do pintor, porquanto entram em jogo a experiência e a análise sensível de cada um.