2014-06-05 18.06.33
"A Insustentável Empresa da Cera"
exposição presente 09 August a 30 August


A insustentável empresa da cera

A dialética do mel e da cera

Só quem faz cera faz mel. É assim no mundo das abelhas, e o senhor de La Fontaine que tenha paciência, mais as suas moralidades de insectos.

Um milhão de neurónios num milímetro cúbico de cérebro para fazer cera, primeiro, e depois passar a fabricar mel. A cera da juventude, o mel da maturidade: durante a sua vida, uma abelha produz o equivalente a 1/6 de colher de café de mel. Para chegar a fazê-lo, passou os primeiros tempos, necessariamente, a fazer cera.

Optimização

As abelhas não gostam de nicotina. A optimização química, sim. A optimização genética também. A optimização agroalimentar não optimiza a alimentação das abelhas. A optimização humana vai direita ao mel, dispensa a cera – um desperdício de tempo e de «recursos», fazer cera. Colmeias são alugadas por empreendedores apícolas a empreendedores agrícolas, para polinizar as colheitas. Por esse mundo fora, viajam em camiões, de campo de trabalho em campo de trabalho. Para as abelhas, a orientação espacial em relação à sua colmeia é vital: ter referências, conhecer a vizinhança, cultivar relações.

O que vêem as abelhas

Tudo o que é vermelho para nós será negro no mundo das abelhas. Que paisagens verão as abelhas que perderam o norte? Que manchas representarão para elas as novas realidades, o admirável homem novo? Que cores de terra, na terra em constante mudança? Terra de Siena? Terra queimada?

Surpresa, melancolia, ironia ou horror. A paisagem do desastre, o grande desenho do terror fez-se a preto e branco, no século XX. A paisagem das abelhas perdidas, retrato de uma insustentável empresa humana, desenha-se aqui em claro-escuro : instantes quotidianos, flashes, meditações sobre destinos e realidades, auto-ironia, voos picados, intermezzos, quedas, animais de companhia,gingles, quadradinhos de banda desesnhada, gestos abruptos, homens-insectos.

E a cera, a inevitável cera: vidas de artista, é o que é.

A.P. Julho, 2014